Quem sou eu

Juiz de Direito desde 2007. Titular do Juizado Especial Cível de Lins(SP). Ex-Professor do Curso de Direito do Unisalesiano em Lins(SP). Ex-delegado de polícia. Motociclista, tatuado e corintiano do "bando de loucos".

18 de mar. de 2014

Interrogatório por videoconferência no processo penal



            O interrogatório por videoconferência foi tema de seminário promovido pela Escola Paulista da Magistratura.
            Prevê o Código de Processo Penal que o interrogatório do réu preso pode ser realizado no estabelecimento prisional. Excepcionalmente, o juiz poderá realizar o interrogatório por videoconferência, para: I - prevenir atuação de organização criminosa ou fuga; II - viabilizar a participação do réu quando haja relevante dificuldade para seu comparecimento em juízo, por enfermidade ou outra circunstância pessoal; III - impedir a influência do réu no ânimo de testemunha ou da vítima; IV - responder à gravíssima questão de ordem pública. Foi garantido o acesso a contato telefônico reservado entre o defensor que esteja no presídio e o advogado presente na sala de audiência do Fórum, e entre este e o preso.
            O assunto sempre gerou muita discussão no meio jurídico. Para alguns o método poderia suprimir direitos. Eles argumentam que a presença física do réu diante do juiz é importante para ele exercer a sua defesa. Outros argumentam que o procedimento de escolta de presos envolve cerca de 3.000 homens e consome muito dinheiro público. Há outros bons argumentos de ambos os lados. A divergência está longe de ser resolvida...
            O Defensor Patrick Lemos Cacicedo destacou que não podemos nos esquecer de que o processo penal envolve seres humanos e suas aflições. Afirmou que somente pode ser considerado legítimo se preservar direitos da parte mais fraca (o investigado) e se o poder do Estado for exercido de forma regrada, contida e razoável. Lembrou que a escolta do preso lhe causa sofrimento pelo calor intenso e que em verdade atualmente contraria lei federal que proíbe o uso de meio de transporte que não propicie ventilação adequada. Ponderou, ainda, que sempre faltam agentes para esse procedimento. No seu entender, o uso da videoconferência fere a ampla defesa. A comunicação imediata do réu com o defensor acaba ficando prejudicada. Outra desvantagem é que ela exige dois defensores em cada audiência: um no presídio e outro na sala de audiência. A Defensoria, tal como alertou, não possui profissionais em número suficiente e contratações também gerariam grande custo. E os Advogados constituídos teriam de pagar colegas para os auxiliarem, o que reduziria seus ganhos e/ou encareceria seus serviços.
            O Juiz Jayme Garcia dos Santos Junior induziu reflexão: não deveria preponderar o interesse da sociedade em ter mais policiais fazendo patrulhamento e em economizar recursos? Os processos não teriam solução mais célere, já que muitas vezes a falta de escolta implica no adiamento de atos judiciais? Para ele o legislador foi até tímido ao tratar da videoconferência, cuja utilização poderia ser ampliada. Posicionamentos muito conservadores, enfatizou, praticamente inviabilizariam o uso do meio eletrônico.
            Patrick ressaltou que aquele momento do interrogatório é um dos mais importantes da vida do réu. Acrescentou que ser ouvido dentro do presídio não lhe propicia toda a liberdade para falar. Asseverou que a falta de escolta e o consequente adiamento de audiências não é problema do acusado, mas do Estado, que não propicia os meios necessários. Insistiu na presença física do réu em Juízo.
            Na visão do Desembargador Octávio Henrique de Sousa Lima, magistrado há mais de 30 anos, temos de nos ajustar à tecnologia. Ela permite que réu e defensor possam conversar reservadamente durante as audiências. Na dúvida, o juiz pode determinar novo interrogatório. Alguns dizem que o réu poderia ser ameaçado antes e depois de ser ouvido dentro do presídio, mas isso, ponderou, também pode acontecer se a audiência for realizada no Fórum. Consignou que talvez o preso prefira não passar pelo desconforto de uma viagem longa dentro de um compartimento fechado. Defendeu que nem seria tão necessário assim manter um defensor no presídio ao lado do interrogando, pois um bom sistema de comunicação e de imagens garantiria ampla visão do ambiente pelo juiz. Posicionou-se pela evolução do pensamento e aproveitamento máximo da tecnologia.
            A Defensora Juliana Garcia Belloque observou que é inútil ser contra ou a favor da tecnologia, mas destacou que seu uso deve sempre ser objeto de reflexão. Ressaltou o quanto o réu espera o momento de encontrar o juiz até pelo grande respeito pela autoridade (muito embora existam algumas exceções de acusados que prefiram afrontá-la). Concluiu que o contato pessoal pode interferir muito no convencimento do juiz, que pode até detectar algum distúrbio de personalidade (como a esquizofrenia) e determinar perícia. Anotou que utiliza telefone para falar com os réus, mas que eles costumam não confiar que estão sendo defendidos e que não costumam dizer nada de relevante para a defesa técnica. Segundo seu entendimento, às vezes a alteração na forma de um ato altera a sua essência. A videoconferência, sustentou, somente deve acontecer em situações extremas. Nos Estados Unidos é utilizada principalmente para a oitiva de crianças vítimas de abusos justamente para que não sejam constrangidas. Deveria servir para a inquirição de outras pessoas (como as que residem noutras Comarcas e que estão com medo de comparecerem) e não para “alijar” o réu da participação da audiência. Asseverou que na vida prática já conseguiu várias vezes, por meio do contato pessoal com réus, obter detalhes importantes para evitar injustiças. Disse que “a câmera não desvenda o gesto”, não transmite adequadamente a emoção. Lembrou que os acusados, se não forem trazidos à presença do juiz, poderão ficar mais suscetíveis às intimidações de organizações criminosas.
            Um magistrado presente no evento observou que a Corte Internacional de Direitos Humanos só realiza atos por teleaudiência, o que demonstra que o meio não é nocivo. Citou a sua experiência em casos nos quais os Defensores ficam com os réus nos presídios (em vez que se fazerem presentes nos Fóruns) e de lá fazem perguntas às testemunhas, podendo, inclusive, solicitar a interrupção de áudio e imagem para conversar reservadamente com o cliente. Destacou que a gravação, na hipótese de recurso, permite que os tribunais julguem com muito mais acerto. Arrematou dizendo que só vê vantagens na videoconferência.
            Foi mencionado, ainda, que quando o réu está no exterior ele é ouvido pelo juiz do local da residência e julgado pelo juiz que está a centenas de quilômetros, ou seja, nessas situações não há mínimo contato entre sentenciado e sentenciante.
            Os argumentos prós e contrários a esse tipo de audiência judicial nem sempre são conhecidos dos leigos. Penso que agora terão mais condições de formar convicção. Afinal, quanto mais conhecimento a gente tem, corre menos risco de formular crítica infundada, especialmente sobre questões reconhecidamente polêmicas.

Adriano Rodrigo Ponce de Oliveira
Juiz de Direito / Professor Universitário
(publicado na edição de 11/2/2014 do Correio de Lins)
 

Amigos, amigos... negócios à parte...



            Certa vez fiz um negócio com um grande amigo e ele ficou me devendo algumas parcelas. À medida que me pagava, eu emitia recibos. Ainda que houvesse amizade e confiança, optamos por documentar tudo. Tivemos a idéia e ele arrematou: “É melhor assim, pois se eu morrer amanhã a minha família vai saber o que foi combinado e o que ocorreu depois! E se você morrer também!”. Negócio “de gente grande” deve ser assim!
            Eu nunca tinha parado para pensar no que ele disse. O argumento reforçou ainda mais a minha “mania” de colocar tudo no papel. É claroque não penso em morrer tão cedo, mas também não posso controlar esse acontecimento...
            Participe seus familiares mais próximos sobre negócios em andamento. Guarde documentos em locais acessíveis. Retransmita e-mails sobre contratações que sejam do interesse deles ou do grupo familiar. O compartilhamento de informações favorece a solução de problemas no caso de falecimento, perda da sanidade ou qualquer outra circunstância que inviabilize a comunicação (ex. coma, acidente vascular cerebral). Não podemos descartar tragédias e muitas vezes elas se tornam ainda “mais trágicas” para familiares. Anote-se que herdeiros assumem obrigações do falecido até as forças da herança (art. 1.792 do Código Civil).
            Documentar contratos (e eventuais aditamentos) pode evitar uma série de aborrecimentos. Contratamos quase todos os dias e por isso a chance de algo dar erro está sempre presente.
            No cotidiano forense são recorrentes, por ex., demandas relacionadas aos repasses de veículos financiados em razão da impossibilidade de quitar as parcelas. O indivíduo acaba “vendendo” um bem que nem lhe pertence porque foi alienado fiduciariamente à instituição financeira (na verdade aliena direitos sobre o bem). O “comprador” não raramente recebe o bem e não cumpre o compromisso de continuar pagando o carnê, ensejando a negativação do “vendedor” e diversos aborrecimentos inerentes. Às vezes já fecha negócio mal-intencionado, sabedor de que usará o automóvel praticamente sem risco algum, uma vez que todas as medidas judiciais terão como alvo o financiado. O ideal seria que as pessoas evitassem negócios do gênero, mas se não houver outra maneira, pelo menos é recomendável que elaborem um documento que preveja com detalhes todas as obrigações e consequências se sobrevier inadimplemento.
            Orçamentos, de uma maneira geral, devem ser solicitados por escrito. Exija discriminação detalhada do serviço e do produto, menção às formas de pagamento e ao prazo de entrega. No caso da construção civil (outra corriqueira fonte de divergências), deve-se estabelecer, por escrito, preços e prazos para cada etapa e não o preço global. Assim, o construtor trabalhará levando em conta as metas ajustadas e o contratante planejará melhor os pagamentos. E na hipótese de desacordo, ficará mais fácil fazer o distrato e apurar haveres. Guardar notas fiscais pode favorecer a troca do produto, a demonstração da propriedade e a satisfação de direitos do consumidor. A posse do comprovante de pedágio até o final da viagem auxilia o contribuinte a deduzir pretensões junto à concessionária da rodovia.
            Muitas vezes é interessante estabelecer uma sanção para o descumprimento de determinada obrigação. Se você, consumidor, não for pontual, automaticamente arcará com as consequências (Serasa, juros etc.). Que tal, por ex., ao encomendar um carro, exigir que a concessionária assuma o compromisso de lhe entregar o bem dentro do prazo, sob pena de determinada multa? Talvez se os compradores agissem dessa forma não sofreriam tanto com falsas promessas... E se o vendedor tem tanta certeza do que alega, qual a razão de se negar a escrever?
            É sempre interessante contar com ajuda profissional na hora de contratar, mas quando isso não for possível mesmo o leigo pode se proteger. Um “papel de pão” manuscrito pode bastar! O correio eletrônico também é uma importante ferramenta. Sempre que combinar algo, peça que as cláusulas ajustadas lhe sejam remetidas por e-mail. Se tiver dúvidas, solicite esclarecimentos pela mesma forma. Os torpedos SMS também são importantes meios de prova. Quem tem por escrito se garante muito mais....
            Sempre exija quitação escrita e detalhada do recebimento e do pagamento de bens e serviços.Leve sempre consigo um talão de recibos.Na dúvida sobre quem está recebendo ou assinando algo, solicite documento. Prefira que a pessoa assine por extenso, pois a depender do rabisco que fizer, inviabilizará ou dificultará exame grafotécnico. Procure organizar cadastros de clientes e fornecedores com fotografias e outros dados de identificação. Os smartphones facilitaram bastante o registro de informações e podem ser usados para fotografar, filmar e digitalizar documentos. Explore todo o potencial do seu aparelho.
            Contratar por escrito deve ser a regra, ainda que o negócio envolva um grande amigo. Quando você se acostuma, passa a agir naturalmente com cautela. E se o outro demonstrar incômodo com a formalidade, ou não está tão seguro assim de que cumprirá o que lhe prometeu;ou não é tão confiável quanto você pensa... Não se constranja em expor a importância da documentação. Se for o caso, não prossiga, pois é melhor um pequeno dissabor para você hoje do que um grande aborrecimento para você ou mesmo para os seus entes queridos amanhã...

Adriano Rodrigo Ponce de Oliveira
Juiz de Direito / Professor universitário
(redigido para a edição de fevereiro da Revista Comunica)

16 de jan. de 2014

Sala isolada


            Getulina(SP), meados de 2000... Acidente fatal na Rodovia Transbrasiliana... Como Delegado de Polícia, passei a arrecadar os pertences do falecido para identificá-lo... Naquele momento, o celular que recolhi no bolso dele tocou... Era uma mulher... Nosso diálogo: Cadê meu noivo? Boa tarde, senhora, ele teve um problema e estou com o celular dele. O que aconteceu (já desesperada)? Houve um acidente e ele está sendo atendido. Pode dizer que ele morreu, eu sei que ele morreu... Eu vou me matar aqui (totalmente descontrolada)... A vida não tem mais sentido. Calma senhora! Eu quero morrer!!!
            Em síntese, a mulher, de pronto, quando o noivo não atendeu ao chamado, desconfiou que algo de grave tinha acontecido. Ainda que eu tivesse desejado contornar a situação, tive de admitir o óbito. A partir de então mantivemos uma longa conversa com o objetivo de evitar uma segunda morte (suicídio). Momentos de grande tensão, mas o desfecho foi positivo...
            Lembrei-me do evento enquanto assistia ao filme Chamado de Emergência, estrelado por Halle Berry, que mostra o drama de uma atendente do serviço 911 da polícia norte-americana frente aos pedidos de socorro e às mortes “testemunhadas” durante os telefonemas. Ela passa a se incomodar por não poder intervir como gostaria, por se sentir impotente diante de certas situações. Nos momentos mais tensos, as atendentes buscam se reequilibrar na “sala isolada”, cômodo especialmente destinado para isso.
            Nos primeiros meses de Magistratura tivemos acompanhamento psicossocial, mas, a bem da verdade, esse atendimento deveria persistir durante toda a carreira. Eu, por ex., pensei por quatro dias para autorizar a interrupção da gestação do feto anencéfalo, pois o deferimento seria irreversível. Cotidianamente vivencio desgraças humanas como o caso do pai que engravidou a filha por duas vezes. Ouvir um adolescente contando, com frieza, como matou o dono de uma padaria, mexeu comigo. Mesmo as situações aparentemente menos graves como os divórcios repercutem emocionalmente, principalmente quando crianças experimentam as conseqüências. Nem sempre consigo manter “distância” do problema do outro, o que tem seu lado positivo (maior chance de acertar ao decidir), mas também o negativo (sensações desagradáveis). Às vezes chego bem desgastado ao final do expediente...
            São muitas as situações, mas o objetivo aqui não é propriamente relatar o que enfrentei e enfrento na minha atividade profissional... Toda profissão tem seus “espinhos”, mas algumas carreiras profissionais deveriam receber constante acompanhamento psicológico. Antes de eleger a sua carreira, é preciso que você tenha exata noção do quanto o seu emocional estará exposto. O maior estresse sem dúvida tem a ver com o contato com a morte. Policiais, bombeiros e profissionais da saúde muitas vezes sofrem por não conseguirem evitá-la. Psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e religiosos sofrem para minimizar os impactos que dela decorrem. Juízes e promotores sofrem quando ouvem as pessoas envolvidas e para formarem o convencimento aparentemente mais adequado sobre o desfecho a ser dado a cada caso. O sofrimento humano contamina todos à sua volta, por mais profissionais que sejam. Às vezes o alcoolismo e as drogas se tornam uma perigosa rota de fuga para o profissional, a depender do quanto se “contamina” com as tragédias.
            A quem pretende ingressar no mercado de trabalho recomendo teste vocacional. Mais do que isso,  sugiro que verifique, de perto, as dificuldades da profissão cogitada. Caso contrário, poderá perder valioso tempo da sua vida estudando para aquilo que não conseguirá desempenhar ou sentirá muito desconforto durante a sua carreira se não tiver alternativa ou se não tiver a iniciativa de mudar de rumo.
            A quem já experimenta as conseqüências da profissão, convém avaliar se vale a pena prosseguir, se não há como fazer ajustes que possam preservar seu emocional, ou mesmo se não seria o caso de buscar acompanhamento profissional permanente. Sugere-se que o empregador avalie a possibilidade de encaminhar aquele bom empregado que enfrenta dificuldades. Assim, terá chance de resgatar todo o seu potencial de trabalho e de retribuir tudo o que ele já fez. Se a empresa não acreditar na importância do acompanhamento ou por alguma razão não disponibilizá-lo (para evitar custos etc.), pode ser o caso de o interessado custear, ele mesmo, esse serviço. Muito embora não pareça justo, na prática esse investimento na saúde poderá poupar a pessoa de conseqüências gravíssimas que não raramente interferem na sua vida como um todo, às vezes, para sempre.
            É preciso, de qualquer forma, muita atenção para que intervenções aconteçam no momento certo, pois quando a “luz vermelha se acender” a “sala isolada” poderá já não ser suficiente... Aí poderá ser tarde demais...
Adriano Rodrigo Ponce de Oliveira
Juiz de Direito em Penápolis(SP)
Professor no Unisalesiano

(redigido para a edição de jan/2014 da Revista Comunica)

8 de dez. de 2013

Um brinde aos farofeiros!



            Tempos atrás eu ouvi alguém reclamar do barulho que os farofeiros fazem quando chegam à praia e até do espaço [público] que ocupam! Muitos têm uma visão preconceituosa dessas pessoas que tanto podem nos ensinar.
        Segundo o Dicionário Aurélio, farofeiro é aquele que não reside no litoral, mas o frequenta, levando consigo aquilo que vai consumir.
            O que para uma parte das pessoas significa dificuldade, para o farofeiro é sinônimo de diversão. Ele se acomoda em qualquer lugar, pois procura ver o lado positivo do passeio. Tem entusiasmo e autoestima. Não fica lamuriando e nem se comparando ao outro. Não finge ser aquilo que não é. Não está preocupado em ostentar uma condição que não possui. Procura ser feliz com o que tem. É realista. É autêntico. Em vez de se preocupar com o congestionamento, diverte-se com aqueles com os quais se espreme num carro normalmente mais antigo e sem ar condicionado. Não se sujeita aos preços abusivos ao transportar o que vai consumir. Fica imune de riscos quando come só aquilo que ele mesmo preparou. Vive intensamente cada momento. Tem mais facilidade para se desligar dos compromissos e preocupações. Não se prende apenas ao trabalho. É criativo para contornar as dificuldades.Tem disposição de sobra para buscar a felicidade nas coisas simples da vida. É organizado e dedica parte do tempo para planejar os passeios futuros. Tem facilidade de conviver em grupo e, consequentemente, de aceitar as diferenças.Congrega crianças e idosos; reúne a família. Não tem vergonha do que é e não liga para “padrões fabricados”.E o que é mais importante: não fica preocupado com o que estão pensando dele e não se abate com a inveja e com as críticas de um ou outro que, mesmo mais abastado, não consegue se realizar na mesma medida e talvez por isso o critique.
          O farofeiro faz tudo isso, com raras exceções, sem prejudicar ninguém, muito embora a sua postura por vezes aborreça alguns. Aliás, não é tão difícil assim encontrar pessoas que se incomodam com a alegria de outras, o que é de se lamentar...
         Mas o que isso tem a ver com a nossa vida pessoal, familiar e profissional? É simples: temos de nos espelhar mais nos farofeiros.
            Não devemos nos frustrar porque não temos aquele bem de consumo que os meios de comunicação insistem que somos obrigados a possuir. Talvez ele não seja tão indispensável quanto pareça. Não precisamos protelar bons momentos da vida, pois sempre haverá alguma atividade física, profissional ou de lazer que será compatível com a nossa faixa etária, com a nossa condição física e socioeconômica e com a nossa disponibilidade de tempo. Precisamos ter em mente que até para se divertir a gente também cansa e tem de superar algumas dificuldades (juntar dinheiro; planejar; se deslocar; improvisar; aceitar o jeito do outro; reagir bem aos imprevistos; adaptar-se aos hábitos e horários das crianças etc.).
         O farofeiro às vezes faz barulho? Então façamos “barulho” também! Deixemos o marasmo de lado!
            Que tal tentar aceitar mais as diferenças, ampliar a tolerância, ter mais flexibilidade para trabalhar em grupo? Enxergar mais as oportunidades para ser feliz que estão ao seu alcance e ser grato a elas? Deixar as lamentações de lado e parar de achar que só você tem problemas ou que seus problemas são sempre maiores do que os dos outros? Sorrir mais? Dedicar mais tempo para você? Cuidar mais da sua saúde física e mental? Fazer mais do que tem feito no seu curso ou no seu trabalho? Oferecer mais ajuda e se interessarmais pelos outros? Parar de ficar pensando que determinada tarefa incumbe ao outro e não a você? Colocar em prática o que você mais discursa do que faz?
         Ter disposição para resolver as coisas da vida e conduzi-la da melhor forma é questão de treino da postura mental. Alguns têm tendência a desanimar e pode ser necessária ajuda profissional. Outros realmente enfrentam dificuldades que temporariamente abalam. Viver é realmente um desafio. Mas se não é possível que tudo dê certo o tempo todo, pelo menos que a gente tente enxergar o lado bom de cada situação e nos aprimorar com cada tropeço!
Adriano Rodrigo Ponce de Oliveira
Juiz de Direito / Professor no Unisalesiano
www.direitoilustrado.blogspot.com
(texto publicado na Revista Comunica – edição de novembro/2013)

Baba-ovo



         Costumo dizer que puxa-saco comigo não tem vez. Um elogio ao chefe vez ou outra é bem-vindo se sincero, despretensioso e comedido. Mas subordinado pegajoso...
         O puxa-saco está tão presente em todos os lugares que Brasil afora são os sinônimos previstos no Dicionário Aurélio, alguns bastante curiosos: “2. Aquele que bajula; adulador, adulão, aduloso, babão, baba-ovo, banhista, cafofa, chaleira, chaleirista, cheira-cheira, chupa-caldo, corta-jaca, engrossador, enxuga-gelo, escova-botas, incensador, lambedor, lambe-botas, lambe-cu, lambe-esporas, lambeta, lambeteiro, louvaminheiro, puxa-saco ou puxa-sacos, sabujo, xeleléu, xereta”.
         Pela minha maneira de interagir com subordinados e de tentar valorizá-los por meio de critérios outros, até hoje não tive tantas experiências desagradáveis com bajuladores, mas, com o propósito de induzir reflexão, resolvi citar uma em especial.
            Durante algum tempo Aparecida (nome fictício) atuou no meu setor. Tudo o que ela fazia, muito embora nada fora do rol de suas atribuições, precisava me mostrar que tinha feito. Depois de algum tempo foi ficando difícil conviver com ela. Aparecida sempre procurava deixar para fazer o seu trabalho quando eu estava presente, de modo que eu pudesse vê-la atuando. E enquanto cumpria seu papel, ficava me interrompendo e ressaltando os resultados. Às vezes eu estava em outro setor ou por alguma outra razão ausente da repartição e Aparecida, mesmo depois terminar seu trabalho, fazia questão de, com a minha chegada, retornar à minha sala e discorrer sobre as tarefas realizadas.
         Queria tanto agradar e se autopromover que se tornava enfadonha... Com a nítida intenção de tentar ser melhor do que outros (cujo desempenho,na prática,me agradava mais do que o dela), não me dava tempo suficiente para avaliar criteriosamente o seu trabalho e eventualmente elogiá-la. Mais do que isso, provocou o nosso distanciamento, pois passei a evitá-la.Já nem conseguia enxergar seus pontos positivos. Afinal, no ambiente de trabalho a gente quer pessoas prestativas, de bom trato, mas também discretas, humildes e com espírito de equipe.
            O subordinado precisa entender que o processo de reconhecimento profissional depende de vários fatores. Às vezes o superior hierárquico não tem tanta habilidade para fazer isso; outras vezes não se atenta suficientemente para o que acontece à sua volta, e noutros casos o reconhecimento esbarra nessas duas causas. Há maneiras sutis de solucionar essa dificuldade sem que a pessoa precise se tornar inoportuna, inconveniente, baba-ovo.
         O fato é que o superior, na maioria das vezes, sabe quem é quem no seu ambiente de trabalho. Repara na produtividade, na postura, no interesse e na competência. Ocorre que, infelizmente, nem sempre manifesta seu contentamento. É preciso que se expresse não só nos momentos de insatisfação, mas reconheça sempre o valor dos seus colaboradores. Isso pode ser treinado diariamente.
         Esse reconhecimento profissional, para o bem de todos, deve decorrer da fidelidade do subordinado, do seu comprometimento e da consideração de fatores como a ética e também a conduta pessoal. O verdadeiro parceiro é aquele que privilegia a cooperação em detrimento da competição.
         Na maciça maioria dos casos é a competência e a não a bajulação que determina promoções e outras oportunidades no ambiente de trabalho. O chefe que elege pela bajulação é injusto com os competentes e ilude o eleito. Perde a oportunidade de orientá-lo para que se aperfeiçoe. E pode estar colocando a empresa em risco.
          Aquele que se serve da bajulação para progredir pode estar maquiando deficiências profissionais e de personalidade. Os chefes devem estar atentos!
         Quando o bajulador consegue alguma coisa somente por conta do puxa-saquismo, isso fica muito nítido aos olhos de todos. Ele (e por vezes também o chefe) vira motivo de piadas. Os nomes estampados no dicionário deixam isso bem claro. E a conquistado bajulador costuma ser sempre provisória. Não raramente dura até que o chefe desavisado deixe seu posto e o sucessor monte outra equipe.
       Ao contrário, o colaborador eficiente pode até demorar um pouco mais para ser reconhecido, mas constrói a sua carreira sobre um rígido alicerce. Geralmente acaba se tornando quase queunanimidade no local de trabalho. É mantido quando a chefia se altera. Adquire cargo, salário, conforto, mas, sobretudo, respeito, consideração e liderança. Torna-se um exemplo de que vale a pena se esforçar e perseverar; conquistar pelo mérito. E se sente verdadeiramente realizado pelo reconhecimento profissional, além de seguro com a maior estabilidade.
       Sugiro, portanto, que você, que é bajulador, pense em investir o tempo na construção de uma carreira efetivamente sólida; e que você,que é chefe, destine a cada integrante da sua equipe o valor que ele realmente merece, depois de analisar quem realmente faz bem ao seu setor ou à sua empresa. Não é difícil o bajulador recorrer a outras artimanhas capazes de prejudicar o próximo para se sobressair... Essa sua postura não pode ser alimentada de forma alguma. É preciso mostrar a ele que não é e nem será a “última bolacha do pacote”.
      E quanto à Aparecida, desejo que ela seja muito feliz onde estiver atuando. Certamente o seu modo de agir agradará alguém, pois não faltarásuperior hierárquico que gostará de ter o ego massageado; portador de visão distorcida a respeito do tema que me propus a enfrentar.
Adriano Rodrigo Ponce de Oliveira
Juiz de Direito em Penápolis(SP)
Prof. no Unisalesiano
(redigido para a edição de dezembro/2013 da Revista Comunica)